Todo Gênio Permanece Através de Sua Obra - 20 Anos Sem Cazuza
Recebia a uns meses atrás, de uma pessoa estimada, um e-mail que para mim foi um soco no estômago. Claro que não concordando, não encaminhei a mensagem aos meus contatos, mas também não deletei, pois, foi tamanho o incômodo que no fundo sabia que uma hora escreveria sobre isso.
Já no campo assunto dizia assim: “leiam e reflitam”. Quando abri deparei-me com a seguinte frase introduzindo o texto que veio a seguir: “Esse cidadão dizia ‘meus heróis morreram de overdose’ e era aplaudido”.
Um texto preconceituoso sobre o poeta, compositor e cantor Cazuza e no mínimo desrespeitoso para não dizer cruel com sua família, amigos e apreciadores de SUA OBRA, já que o próprio artista se foi faz hoje 20 anos.
O texto se dizia uma mensagem que precisava ser retransmitida a todas as famílias, já que, uma psicóloga teria tido a coragem de escrever algumas “verdades” após assistir ao filme de Sandra Werneck, Cazuza.
Ela escreveu que tinha se deparado com uma “coisa estarrecedora, onde as pessoas estavam cultivando ídolos errados”. Perguntava como as pessoas poderiam cultivar um ídolo como Cazuza? Concordava que suas letras eram tocantes, mas o chamava de marginal e tal reverência era no mínimo inadmissível. E bradava, Cazuza era marginal porque vivia à margem da sociedade que “pessoas como ela” tentava construir, com conceitos de certo ou errado. Disse que no filme viu um rapaz mimado que nunca precisou trabalhar, cujo a mãe vivia para satisfazer suas loucuras, que o pai resumindo preferiu se omitir e mais injustamente ainda que nosso poeta só começou a gravar porque seu pai era diretor de uma importante gravadora. Perguntava também se são exemplos de pais como esses que queríamos ter? Termina seu texto colocando que vale lembrar aos pais que a morte de Cazuza foi conseqüência da educação errônea que recebeu. De forma crudelíssima pergunta se Cazuza teria morrido do mesmo jeito se tivesse tido pais que dissessem não quando necessário?
A psicóloga justifica seu brado indignado principalmente por ter uma filha adolescente, com a qual segundo ela teve que conversar muito para que não começasse a pensar que usar drogas, participar de bacanais e beber até cair entre outras coisas fossem certas, já que foi segundo ela, isso que o filme mostrou.
Preciso dizer que sinto medo de pessoas assim... Ora, também tenho filho adolescente e preciso dizer também que sou radicalmente contra a qualquer tipo de droga e que cabe mesmo a nós, pais nesse mundo caótico, conversar e orientar nossas crianças e adolescentes, e histórias como a do Cazuza, são pontos de partida para reflexão e debate dentro e fora de casa. Duvido que qualquer adolescente sinta vontade de fumar um “baseado” após conhecer a história do poeta que morreu aos 32 anos única e exclusivamente por conta das escolhas que ELE PRÓPRIO FEZ.
Espero não haver tantos adeptos em construir a tal sociedade que você tanto quer baseada em tanto radicalismo e preconceito. Não sei como é seu dia-a-dia, mas a meu ver não existe respaldo para ninguém tomar a posição de “Deus” e julgar aquilo que só assistiu do lado de fora e pior ressaltando pontos negativos da vida pessoal de um artista sem dúvida alguma genial. Dizer que Cazuza só gravou porque seu pai era diretor de uma grande gravadora é ridículo e injusto, só para esclarecer: 9 anos de carreira = 126 canções gravadas, 78 inéditas e 34 para outros artistas interpretarem.
E quando Cazuza canta “Ideologia”, ao analisar a letra da música percebemos angústia face à decepção com sua visão de mundo, nada é como ele pensara, as coisas não saíram como esperava, “ilusões perdidas”, “sonhos vendidos”, ele (o eu lírico) queria algo em que pudesse acreditar para viver, uma ideologia. Essa música foi composta após ele saber que estava infectado pelo vírus HIV.
Não nos cabe julgar a vida pessoal de ninguém, ainda que a pessoa em questão seja uma pessoa pública, um artista que querendo ou não, exerce influência na vida daqueles que o admira, mas se for mesmo inevitável falar da vida pessoal de um poeta como Cazuza, mudemos o foco, pois, se tem uma coisa que também ficou além de suas composições, foi uma noção de limites, até onde podemos ir sem prejudicar os outros e a nós mesmo, sua vontade de viver e muita, muita saudade...
OBSERVAÇÕES IMPORTANTES:
A Sociedade Viva Cazuza iniciou suas atividades em 1990, quando Lucinha Araújo e João Araújo, pais de Cazuza, amigos e médicos decidiram dar continuidade à sua luta o HIV/AIDS.
Em 1994, foi inaugurada a primeira Casa de Apoio Pediátrico do Município do Rio de Janeiro, em imóvel cedido pela prefeitura.
Hoje, a sociedade Viva Cazuza abriga 22 crianças com idades entre 3 e 15 anos, na Casa de Apoio Pediátrico.
Mantém um site educativo e inforativo sobre AIDS, com o objetivo de trazer informações atualizadas sobre o tema traduzidas em português.
Desenvolve um trabalho de Apoio Social para 120 pacientes adultos em acompanhamento ambulatorial no Hospital da Lagoa e no Instituto Estadual de Infectologia São Sebastião.
Desenvolve Projeto de Prevenção à AIDS em escolas e empresas.
Produziu e distribui a cartilha “Uma babá mais que perfeita”, para profissionais que trabalham com portadores do vírus da AIDS.
Conheça o site da Sociedade Viva Cazuza: www.vivacazuza.org.br
By Déo Gadelha
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